Lanegan
Ultimamente eu tenho ouvido bastante Mark Lanegan e também relendo sua biografia. Isso me deu a inspiração pra finalmente tentar escrever algo a respeito dessa figura emblemática - pra mim e pra um monte de gente que passou pelos anos 90 e mergulhou naquele último grande suspiro do Rock n’ Roll, do qual ele fez parte.
Ao contrário de outros nomes mais populares da cena de Seattle, Mark Lanegan é um nome relativamente obscuro. Em parte por sua música ser também insistentemente obscura. E em parte por ele mesmo ter sabotado sua carreira, seja pelo seu temperamento, seja pelos seus vícios.
Mesmo assim, o cara viveu mais do que Kurt Cobain, Chris Cornell e Layne Staley. E sua carreira solo também sobreviveu ao estilo que o consagrou nos anos 90, navegando por outros mares e o afirmando como uma das vozes mais marcantes da sua geração. E como sobrevivente de si mesmo.
Vamos então falar dele, Mark Lanegan.
Cowtown
Lanegan nasceu em 1964 na cidade de Ellensburg, noroeste dos EUA. Nas suas palavras, uma “cowtown”, ou “cidade vaca”. Ambiente conservador tomado por rednecks.
Não que ele, Lanegan, fosse moralmente superior a ninguém. Em seus tempos de estudante, seu passatempo era roubar coisas nos armários dos colegas. Ou então dirigir de moto até cidades vizinhas e lá beber até perder a consciência.
Um belo dia nos anos 80, passando pelos vinis de uma loja de discos, encontrou uma capa que chamou sua atenção e comprou o disco. Era do Gun Club, uma banda do movimento pós-punk, que pra ele foi como uma redenção e um chamado. Chamado pra sair de vez da tal “cidade-vaca” e ver o mundo lá fora. O mundo daonde aquela música vibrante emanava.
Para sua sorte, havia outros adolescentes desajustados na cidade que também gostavam daquele tipo de som. Eram os irmãos Conner, Lee e Van, com quem ele formaria o Screaming Trees.
Árvores gritantes
O Screaming Trees era de fato como uma árvore gritante, naquela cidade de tantas árvores mudas. E o grito vinha cheio de Fuzz e Wah-Wah - aqueles efeitos de guitarra sujos e psicodélicos, tal como o som da banda.
Não era exatamente um quarteto dos mais harmoniosos no campo das relações internas, mas foram capazes de lentamente descobrir uma identidade sonora. Contratados pela SST, uma gravadora especializada no rock alternativo da época, gravaram uma sequência de álbuns mesclando Punk, Folk e Psicodelia. Mas ainda estavam longe do resultado que viriam a conseguir mais tarde, quando a banda resolveu mudar para Seattle e conseguir um contrato com uma gravadora grande, a Epic, em 1991.
“Uncle Anesthesia”, lançado naquele mesmo ano, e o belíssimo “Sweet Oblivion”, em 92, registraram o amadurecimento da banda e podem ser ouvidos tranquilamente hoje em dia, tendo passado com folga no teste do tempo. Traziam o DNA sonoro da época, bebendo da mesma fonte de Nirvana, Alice in Chains e Soundgarden, mas também tinham uma marca original, a influência de um certo pop dos anos 60 que os diferenciava das outras bandas. Cortesia de Lee Conner, guitarrista e principal compositor, um aficcionado por bandas psicodélicas obscuras.
Isso tudo sem falar da voz de Mark Lanegan, um capítulo à parte. Uma voz meio de bêbado, meio de louco. Que ao cantar ora parecia chorar, ora murmurar. Uma voz que fugia totalmente do padrão Hard-Rock, ao privilegiar os graves ao invés dos agudos.
Com esses ingredientes, o Screaming Trees estava preparado para “conquistar o mundo”, tal como estavam fazendo seus colegas do Nirvana, do Alice ou do Soundgarden. Só que não.
Folha ao vento
A gravadora Sub-Pop era o lar de muitas bandas da cena de Seattle, naquele momento onde tudo era mais “underground”. O Nirvana lançou seu primeiro disco, “Bleach”, lá. Foi essa gravadora que sugeriu a Lanegan a gravação de um álbum solo, ainda em 1990.
“The Winding Sheet” foi pra ele o início de uma fértil carreira. Ali, ele pôde se descolar do som amplificado e nervoso dos Trees e soltar seu lado crooner, numa coleção de canções lentas e sombrias, levadas no violão folk com acompanhamento austero - ideal para ele soltar suas letras desesperançadas tais como:
I’m drunk half-blind, and it’s an ugly Sunday morning
The wind arrives with the clouds refusing to break apart
Like me
Esse trabalho deu a Mark alguma reputação e logo veio a sequência, “Whiskey For The Holy Ghost”, lançado em 1994.
“Whiskey For The Holy Ghost” foi um aprofundamento no espírito de seu predecessor, mas mais bem produzido e com canções mais inspiradas. Como é o caso da lindíssima “The River Rise”, que abre o disco:
Oh the river rise
And it’s a mile high
Is this worth drown?
Is this worth trying?
‘Cause I could fall like a tear
There’s nothing else I can do
Ali também já se podia notar a facilidade de Lanegan em reunir gente talentosa a seu lado para colaborar em seus projetos. “Whiskey” contou com a ajuda de Mike Johnson e J. Mascis, do Dinosaur Jr, entre outros músicos do efervescente Rock alternativo da época. Isso foi uma constante em todos seus trabalhos futuros.
Abismos
Por volta daqueles mesmos anos, Lanegan, já convivendo com um forte alcoolismo, se envolveu com a heroína. Logo ele tornaria-se um dos maiores junkies numa cena onde esta droga já era onipresente. Interessante que, segundo ele próprio, sua ligação com a droga teve como uma das razões justamente ela tê-lo livrado do alcoolismo.
Realçar os abismos que Lanegan viveu com a heroína parece sensacionalismo. Basta dizer que ele foi até o fundo do poço e lá achou um alçapão. Não morreu de overdose, como outros da sua geração, mas suas condições de vida e de saúde se degradaram lenta e impiedosamente.
O Screaming Trees, que ele sempre considerou seu principal trabalho - já que se recusava a divulgar seus álbuns solo - com muito custo gravou um último álbum, “Dust”, em 1996. Mark, que estava há um tempo limpo, teve uma recaída durante as gravações, o que gerou crises com os colegas de banda e empresários.
A verdade é que naqueles anos, nada mais interessava a ele a não ser obter heroína, custasse o que custasse.
Essa espiral pra baixo só não levou sua vida devido à ajuda de Courtney Love, a viúva de Kurt Cobain, que em 1997 financiou o tratamento de Lanegan na famosa clínica Betty Ford. Ela e Kurt foram desde sempre seus amigos e apoiadores. Mark e Kurt já eram amigos há muitos anos e chegaram a gravar juntos.
A Volta
Saindo do tratamento, e finalmente sóbrio, Mark trabalhou em bicos para se sustentar e aos poucos retomou sua carreira solo, não parando mais. Entre os costumeiros altos e baixos, deixou uma discografia extensa, marcada por parcerias com ícones da cena musical alternativa.
Parecia que todo mundo queria colaborar com aquele cara tão sofrido, porém autêntico e que naquele momento, já havia se tornado uma referência.
Discografia selecionada
No Rate Your Music, pode-se ver facilmente que a discografia solo de Mark Lanegan é extensa. Não ouvi todos os álbuns, mas vou listar aqui alguns de meus favoritos dentre os que ouvi.
The Winding Sheet (1990)

Primeiro disco solo, onde contou com a ajuda de Mike Johnson. Ainda hoje acho um álbum envolvente e zero pretensioso.
Whiskey For The Holy Ghost (1994)

Comparado ao anterior, soa mais ambicioso e Mark se mostra mais seguro como cantor, explorando mais a voz e passando mais intensidade e emoção. “The River Rise” e “Borracho”, as duas primeiras músicas, são um bom exemplo disso.
Field Songs (2001)

Feito em parceria com Ben Sheperd, eterno baixista do Soundgarden. Também um trabalho acústico e com uma atmosfera mais cool. Perfeito para relaxar.
Bubblegum (2004)

Disco bem mais tenso e pesado, flertando com o Rock de novo. O álbum é creditado à Mark Lanegan Band, e contou com a colaboração de Josh Homme - nessa altura já uma celebridade como frontman do Queens Of The Stone Age. Destaque para “One Hundred Days”.
Imitations (2013)

Segundo disco de versões, com clássicos da canção norte-americana, que suponho que os pais de Mark ouviam na sua infância. É um disco mais fora da curva, mas bem interessante. Destaco a versão de Elegie Funèbre, do cantor francês Gérard Manset.
Phantom Radio (2014)

Colaboração com o músico Alain Johannes, que também trabalhou com Chris Cornell em seu primeiro álbum solo (e provavelmente com um monte de gente da cena da época). Aqui Lanegan flerta com música eletrônica e o resultado soa muito bom e natural (e eu nem sou tão fã desse gênero em particular).
Falecimento
Aos 57 anos, em 2022, Mark Lanegan morreu, na cidade de Killarney, na Irlanda. Embora não se saiba oficialmente o motivo, a suspeita é por complicações causadas pela Covid, doença que ele havia contraído e o havia levado à internação e quase óbito. Ele estava morando com sua esposa na Irlanda desde 2020.